Capítulo II: A Deusa e o Caçador

Como prometido, segue o segundo capítulo do livro. Nele vamos conhecer um pouco mais da história do clã da Lua e se defrontar com as brumas de um passado misterioso. Que comecem as teorias u.u. Se preferir, pode acompanhar também pelo Widbook. Boa leitura e que a Luz ilumine nossa jornada.


Capítulo II: A Deusa e o Caçador

Liam seguia por uma trilha escura no meio da noite fria. As Montanhas Luas espiavam suas costas, cada um de seus movimentos, como se fossem realmente deusas caídas na terra. Corria, procurado por Lysa.

– Lysa! Lysa! – gritava ele, mas não havia resposta.

Uma tempestade descia sobre as Montanhas e logo encheria a ar da floresta.

– Lysa! Lysa! Onde você está? – mas seu chamado se perdeu na imensidão da não-existência.

Uma gargalhada sinistra e insana ecoou pelo vazio frio da noite sem lua. Um arrepio subiu por sua espinha e uma neblina ofuscava sua visão. Lysa corria perigo, pressentia isso.

– Lysa! Responda!

– Hahahahahahahahaha – a gargalhada foi a única resposta que obteve.

– Akyn? É você? Apareça!

Mas no silêncio mortal da noite sem lua, apenas sua gargalhada louca era ouvida, uma sinfonia insana e desumana.

Liam correu, correu e correu, mas não pareceu se mover. A neblina o cegava e as árvores pareciam se mover, estendendo seus galhos de aparência diabólica como braços de almas condenadas. Parou. Depois correu, o mais rápido que podia, adentrando cada vez mais na floresta amaldiçoada. Chegou no coração dela, no cerne de toda a existência e concepção. No fundo da densa neblina, Lysa repousava, bela e deslumbrante, como uma ninfa com asas de fada.

– Liam! – disse ela, e sua voz ecoou pela floresta.

– Lysa!

– Liam! Não se aproxime!

Mas ele não deu atenção. Ele correu, correu para pegá-la em seus braços e levá-la para casa, mas a visão pareceu distorcer e a neblina densa engoliu-a completamente.

– Lysa! Lysa!

Ele correu e pulou na direção do lugar onde ela estava e adentrou em outro mundo onírico. A gargalhada insana de Akyn e os gritos de horror de Lysa ecoavam sonoramente em sua mente, preenchendo toda a sua existência como a neblina preenchia a floresta assombrada.

– Lysa! Lysa!

Mas não havia outra resposta, a não ser as gargalhadas insanas e os gritos de horror. Através da densa neblina ele distinguiu os olhos loucos e desumanos do demônio.

– Akyn! Nãooooo! – seu grito reverberou por todo o cosmos, mas não serviu de nada.

A chuva começou a cair, lavando o ar pesado. No fim, havia apenas Lysa repousando o sono eterno em seus braços manchados de sangue.

Então ele acordou, banhado em suor. Ainda era madrugada. Permaneceu na cama, esperando a vinda da alvorada, na esperança de que ela trouxesse o alívio…

Já estavam avançando há aproximadamente uma hora. Partiram cedo, logo após a alvorada, como o pai dissera. Fizeram um desjejum rápido, com pães e ovos e uma maça, pouco antes dos primeiros raios de sol. Enquanto ela terminava de arrumar as coisas e carrega-las na carroça, o pai preparava os cavalos. Encheram a carroça com vários suprimentos, pois a viajem era longa.

– Aproximadamente uns sete dias. Seis, se tivermos sorte.

– É difícil chegar lá?

– Basta seguirmos a estrada que parte da vila.

Ao passarem pela vila, pararam rapidamente para falar com a senhora Molly. E depois passaram também na casa do Ancião.

– Desejo uma boa viajem para vocês – disse o Ancião com sua voz rouca e compassada. – Que a Luz ilumine o vosso caminho. – ele sempre dizia isso, como se fosse um mantra sagrado.

– Que assim o seja – respondeu o pai.

O pai saiu para falar com um de seus amigos na vila. Rythila resolveu ficar e esperar na casa do velho Slarty.

– Não vai acompanhar seu pai, filha?

– Vou esperar ele aqui. Gosto da sua companhia e das suas histórias.

O velho limitou-se a sorrir e fitou-a com seus olhos negros.

– O que a aflige, filha?

– Ancião, eu tive um sonho esta noite.

– Todos nós tivemos um sonho esta noite, filha. – ponderou ele.

– Mas esse foi diferente. Minha parte adormecida estava tentando me dizer alguma coisa.

– Hum… então é isso… – disse o velho, pensativo.

– Sim – disse ela, e contou-se o sonho o mais detalhadamente que lembrava.

Quando terminou, o velho pareceu refletir sobre o assunto. Por fim disse:

– É, pode ser que sua parte adormecida esteja tentando lhe contar algo. Seguir a Lua, hein? E o que você pretende fazer?

– Não sei, Ancião – confessou ela – Eu… eu achava que o senhor pudesse me dizer o que significa e o que eu devo fazer.

O velho Slarty fez-lhe um sinal para que se aproximasse. Ela assim o fez. Ele tocou-lhe gentilmente na testa e disse:

– Filha, só você pode decidir o que seu sonho significa e o que deve fazer. A resposta está aqui – e tocava gentilmente sua testa.

Aquilo não era realmente a resposta que esperava. Ouviu seu pai chamar lá fora.

– Precisa ir, filha. Não vai querer deixar seu pai esperando.

– Com sua licença, Ancião – disse ela, fez uma reverência e beijou-lhe a mãe esquerda, como havia lhe ensinado o pai ao tratar com o Ancião.

Fez um reverencia respeitosa e saiu.

O sol erguia-se lentamente no horizonte. Além da Alvorada. Rythila não conseguia esquecer o sonho da noite anterior. Não chegou a conhecer a mãe, e o pouco que sabia dela era devido as poucas vezes que seu pai falara. Na verdade, o pai falava muito pouco sobre qualquer assunto que envolvesse o passado. Isso não está certo. Decidira que já tinha idade suficiente para saber mais sobre o passado de sua família.

– Sonhei com a mãe ontem – disse ela tentando começar o assunto.

Ian olhou para ela com um olhar de leve curiosidade. Fitou-a por alguns instantes e por fim disse:

– Ah, verdade? Então deve ter sido um sonho bom – e esboçou um sorriso tímido.

Na verdade, não. Mas não verbalizou este pensamento. Limitou-se a sorrir de volta. E fitou o pai com olhar de extrema curiosidade, esperando que a conversa de desenvolvesse naturalmente, o que não foi o caso.

– Pai – continuou ela – me fala mais sobre a minha mãe.

Ele pareceu refletir por um momento.

– Ela era a pessoa mais maravilhosa que já existiu – disse ele com um sorriso triste.

– Isso eu já sei. Você sempre diz que ela é maravilhosa e bonita e corajosa, mas nunca fala do passado. – olhou fixamente para ele e perguntou – Porque você nunca fala sobre o passado, pai?

– Existem coisas que não merecem ser lembradas – respondeu ele desconfortavelmente.

– Mas eu quero saber. Acho que já tenho idade para saber, você não acha?

Ian lançou à Rythila um olhar com um misto de admiração e tristeza.

– Você é exatamente igual a sua mãe. Sempre determinada – Suspirou – Muito bem, vou contar. O que você quer saber?

– Você me disse uma vez que minha mãe morreu no meu parto… Que estava muito doente…

– Sim…

– Que doença?

Ian levantou os olhos e fitou o horizonte que surgia a frente. Não queria falar sobre aquilo. Mas um dia ela teria que saber.

– Ela morreu de febre da Lua.

Rythila pareceu confusa.

– Febre da Lua…? – repetiu debilmente – O que isso? É uma doença grave?

– Não se for tratada a tempo. Ela começa com cansaço, febre baixa, falta de apetite e tonturas. Alguns dias depois pode surgir irritação nos olhos, anemia, suor frio, febre alta e tremores nas mãos. Até esse estágio ela pode ser tratada. Existem algumas ervas cujo sumo é usado para tratar dessa febre.

– E você fez isso?

Ian parecia não saber o que dizer

– Eu… eu não sabia que ela estava doente. Estava fora, caçando. Passei dias sem vê-la.

Rythila ficou claramente chateada.

– Mas como assim? Ela estava grávida, precisava de cuidados e você estava fora caçando?

– Eu sou um caçador…

– Seu lugar era junto dela e você deixou-a grávida e doente – estava irritada. – Agora entendo porque nunca queria contar essa história.

– Ela não estava doente quando eu parti. – cortou ele. – Além disso, não deixei-a sozinha. Ela estava sendo bem tratada.

– Por quem?

– Amigos.

– Amigos de verdade não deixam uma amiga morrer de uma doença tratável.

Ian não tinha resposta para isso.

– Rythy… – disse ele estendendo o braço para ela

– Não me toca – disse ela afastando o braço rudemente. – Não quero falar com você. – E levantou-se e foi para a parte de trás da carroça e ficou lá pensando na vida.

Foi um dia inteiro de viagem sem trocarem quase nenhuma palavra. Próximo ao meio-dia Ian parou a carroça e disse:

– Precisamos comer alguma coisa.

Ela nada respondeu. Comeram alguns pães com queijo e alguns pêssegos sem uma palavra. Rythila nem mesmo se atrevia a olhar para a cara de Ian. Quando recomeçaram a viagem, foi tão solitária como antes. Quando a noite caiu, Ian acendeu uma fogueira e fritou dois peixes. Como antes, Rythila limitou-se a comer calada.

– Ela morreu em meus braços, logo depois de você ter nascido.

Rythila apenas levantou os olhos por algum tempo para baixa-los novamente e voltar a dar outra mordida no peixe frito.

– Seu último desejo – continuou ele – era que eu você fosse chamada Rythila. Esse era o nome da… – hesitou, medindo as palavras – da mãe dela.

Silêncio pairou por alguns instantes, até que Rythila resolveu quebra-lo:

– Não conheci minha avó, assim como não conheci minha mãe, por que você não estava com ela quando ela mais precisou.

– Lysa também não estava com a mãe quando… quando esta morreu da mesma doença que a matou – disse ele ressentido. Nem eu estava.

– Por que está me dizendo isso? – perguntou ela secamente.

– Para que você saiba o que fazer se um dia for acometida pela mesma febre.

Ela pareceu surpresa.

– Quer dizer que um dia eu posso ter essa doença?

– É provável.

Ian aproximou-se de Rythila e explicou detalhadamente:

– A febre da Lua é uma doença muito comum na nossa tribo, principalmente entre as mulheres. Mas fazia várias gerações que não se havia registro de um caso, até que houve um surto na época da sua avó. Como eu disse, é uma doença muito tratável e na época ninguém morreu. Muitos anos depois sua avó teve uma recaída e a doença voltou mais forte. Achávamos que era apenas uma gripe comum, porque nunca antes houvera um caso em que a doença reaparecera. Acreditávamos que uma vez que se teve a febre e tivesse sido curado, a pessoa estaria imune à doença.

– Mas não era o caso…

– Exatamente. Quando a doença voltou, ela voltou mais forte. Evolui muito rápido e o tratamento não surtia efeito. A febre chegou ao terceiro e quarto estágios.

– Como assim?

– Eu falei mais cedo sobre os sintomas dos primeiros dois estágios. No terceiro estágio a pessoa parece curada. Não apresenta nenhum sintoma. Nada de febre, de cansaço, de nada. E então, depois de algumas semanas, chega o quarto estágio. No começo a pessoa começa a ter insônia e alucinações. Depois, volta a ter todos os sintomas dos dois primeiros estágios, porém muito mais fortes. E então, após um ou dois dias, ela morre.

– Mas… não é possível fazer nada?

– Sim, ainda existe uma cura, mas é muito difícil. Depois que começam as alucinações, a única cura conhecida é uma substância extraída de um cogumelo muito raro, chamado cogumelo-da-lua. Esse cogumelo só pode ser encontrado nas partes mais altas das Montanhas Luas, por isso ele tem esse nome.

Montanhas da Lua. Nunca tinha ouvido falar desse lugar. Será que era esse o lugar que minha mãe falou no sonho?

– E onde ficam essas montanhas?

– Muito muito longe. Ficam à Oeste daqui, do outro lado do continente. Levaria semanas para chegar lá.

Oeste. Não era isso. Minha mãe disse para seguir a Alvorada, seguir para o Leste, não Oeste.

– Então – raciocinou ela – não houve tempo para conseguir a cura para minha avó?

– Infelizmente não.

Houve um longo silêncio depois disso. Olhou para esqueleto que sobrou do peixe depois de comê-lo. Olhou para o céu. A grande Lua prateada pairava majestosamente lá. Então perguntou:

– E porque você não conseguiu a cura para minha mãe?

Ele não respondeu de imediato.

– Quando eu retornei da minha caçada ela parecia totalmente sadia. Contaram-me que ela tivera febre da Lua, mas que fora curada. Mas não estava. Ela só estava no terceiro estágio da doença. Só percebi que ela ainda tinha a febre quando na hora de seu parto. A pele de sua mãe queimava com a febre, suava frio, tinha tremores nas mãos – ele parecia lembrar disso com muita vivacidade – e seus olhos estavam vermelhos de tão irritados que estavam. – Ian conteve um suspiro de emoção – Eu…eu não pude fazer nada para salvá-la. Ela morreu em meus braços e eu não podia fazer nada – uma lágrima surgiu em seus olhos.

Rythila aproximou-se a abraçou o pai com carinho. Ele realmente a amava.

– Desculpa… – balbuciou ela, com voz chorosa.

– Não tem que pedir desculpas…

E ficaram assim abraçados por um bom tempo, apenas a Lua foi testemunha daquela cena.

Na manhã seguinte continuaram a viajam com o espirito e forças renovados. Já estavam na estrada há algumas horas, mas desde de que acordou alguma coisa ainda importunava a curiosidade de Rythila. Doença da Lua, pensou ela. Tocada pela Lua. Montanhas da Lua. Porque se sentia tão atraída pela grande Lua prateada? Além disso, parecia que o pai conhecia a avó muitos antes mesmo de casar com a mãe. E falara sobre uma tribo. Não queria perguntar ao pai para não fazê-lo lembrar da história novamente, mas por fim a curiosidade foi mais forte.

– Pai – começou ela – como você conheceu minha mãe?

Ele pareceu hesitar, mas respondeu:

– Crescemos juntos na mesma aldeia.

Aquilo pareceu contentá-la por alguns segundos. Mas só por alguns segundos. Evidentemente não era a mesma aldeia em que morava agora.

– Ontem à noite… Você falou sobre uma tribo… Que a febre da Lua era comum entre os membros dessa tribo…

– Bem – disse ele com um suspiro – acho que já está na hora de você saber um pouco mais sobre os seus antepassados.

Antepassados, pensou ela.

– Você, eu, sua mãe, os pais dela, meus pais, nossos avós, os pais deles, todos somos descendentes do chamado clã da Lua.

– Clã… da Lua?

– Isso mesmo. O clã da Lua é um dos mais antigos e tradicionais clãs cujos descendentes já pisaram nesta terra. Seus primeiros patriarcas viveram há mais de sete mil anos atrás, nas Montanhas da Lua, por isso o clã tem essa alcunha. Os primeiros descendentes gostavam de chamar a si mesmo de ‘filhos da Lua’.

Tocada pela Lua.

Rythila acenou com a cabeça. Gostou da ideia de pertencer a um clã. Então lembrou-se de algo que o Ancião lhe ensinara

– Pensei que a vila onde moramos pertencesse ao clã da Ninfa. – comentou um tanto confusa.

– E de fato pertence. Os governantes da grande cidade de Vyzar são descendentes do clã da Ninfa, mas isso não significa todos nós precisamos pertencer ao mesmo clã.

Isso era verdade.

– Por que não moramos nas Montanhas Luas então?

– Não nascemos lá. Sua avó não nasceu lá. Pertencemos ao um ramo do clã que não habitava a região das Montanhas. O clã é muito grande, seus descentes espalharam-se por todas as partes de Erys.

– E você e minha mãe nunca estiveram nessas Montanhas da Lua?

– Nunca – mentiu ele.

À noite, enquanto comiam à beira de uma fogueira, Rythilla observava a grande Lua prateada que iluminava o céu noturno.

– A Lua está tão brilhante que poderíamos viajar à noite – disse ela casualmente.

Ian fitou o belo astro na abóbada e confirmou:

– Realmente. Mas não acho que seja uma boa ideia viajar à noite.

Rythila apena confirmou com a cabeça e voltou a contemplar a lua.

– É curioso como você sempre gostou de contemplar a lua – disse Ian. – Talvez você seja realmente tocada pela Lua.

Rythila percebeu que nunca ouvira o pai usar aquela expressão. Era algo que só ouvia nos sonhos com a mãe. Mesmo assim ele sabia…

– O que é isso? – perguntou como quem não quer nada.

– Era apenas algo que sua mãe gostava de repetir quando estava grávida de você.

– E isso significa alguma coisa?

– Nas lendas antigas, ser tocado pela Lua significa que a pessoa foi gerada pela própria deusa lua Selynny. – deu de ombros – Mas eu prefiro acreditar que significa simplesmente que você nasceu com cabelos prateados.

– Não acredita em deuses?

– Você acredita?

– Bem… acredito.

– Eu só acredito no que eu posso ver. Nunca vi uma deusa lua. – Olhou para a filha e viu que ela parecia um tanto desapontada com a falta de fé do pai. Então disse – Mas não significa que eu não goste de histórias com deuses. Quer ouvir uma?

Rythila esboçou um sorriso:

– O Ancião me conta várias histórias sobre deuses e heróis lendários…

– Eu sei, mas essa ele certamente não te contou. É lenda da criação do nosso clã.

Aquilo realmente pareceu interessa-la. Era realmente uma pessoa muito curiosa e ávida por boas histórias.

– Conta – disse ela, sentando ao lado do pai.

Então ele contou:

– A lenda dizia que um dia a deusa Lua Selynny desceu para a terra e se disfarçou de uma bela jovem de longos cabelos prateados e olhos azuis e foi para a cidade mais populosa da Erys naqueles tempos para seduzir os homens. Quando chegou na cidade, todos os homens se encantaram com sua grande beleza e esplendor eles começaram a galanteá-la. Os mais ricos traziam-lhe belos e caros presentes, joias de grande valor, belos vestidos de seda, especiarias muito raras. Os cantores compunham lindas canções em sua homenagem. O mestre dos ferreiros ofereceu-lhe a mais bela espada que já havia forjado. O próprio rei da cidade ofereceu-lhe o posto de Rainha, caso ela se casasse com ele. Todos queriam casar com ela, tamanha era a sua beleza. Passaram-se dias e ela não escolhia nenhum pretendente e mais e mais pretendentes, inclusive de outras cidades vinham para apreciar sua beleza e tentar conquistar seu coração.

– E algum deles consegui?

– Bem, muitos tentaram, mas nenhum deles a agradou. Na verdade, apenas um lhe chamou atenção.

– E quem era?

– Um jovem caçador. O caçador mais valente da cidade. Era o único homem que nunca tentou galanteá-la ou lhe dar um presente. Parecia não se importar com ela. Aquilo deixou-a irritada, pois ela era uma deusa e os deuses são vaidosos. “Como pode existir um homem que não se curve à minha beleza?” dizia ela. Depois de alguns dias, a única coisa que lhe interessava era fazer o caçador se apaixonar por ela. E por isso a cada dia ela aparecia mais e mais bela, com adornos e vestidos mais e mais exuberantes. Desfilava todos os dias na cidade deixando-se mostrar sua beleza. Todos os homens a admiravam, exceto o caçador. Houve mesmo uma vez em que ela resolveu banhar-se em um lago no meio da floresta porque sabia que o caçador estaria caçado próximo dele naquele dia. Ele chegou a vê-la completamente nua e mesmo assim ele não tentava galanteá-la. Os dias foram passando, e nada dele se apaixonar. E os outros pretendentes pressionavam para que ela escolhesse um e isso a irritava ainda mais. Até que ela teve uma ideia.

– Qual ideia?

– Então, um dia ela convocou uma reunião com toda a cidade e anunciou que escolheria aquele que lhe trouxesse um pedaço da Lua prateada. Isso era obviamente impossível, por isso propôs esse desafio, porque sabia que ninguém iria cumprir, embora alguns morressem tentando. Ela esperava que todos desistissem de tentar conquistar sua atenção, porque ela mesma queria conquistar a atenção do caçador, mas não queria admitir isso, por causa do seu orgulho de deusa.

– E o que aconteceu?

– Alguns começaram a especular o que isso significaria, se era algum tipo de enigma, se poderiam leva-la uma joia prateada parecida com a lua, ou um vestido prateado para combinar com seus cabelos. Mas a maioria começou a protestar, afirmando que aquilo era uma tarefa impossível. Foi então que o caçador se aproximou dela e disse: “minha nobre senhora, permita-me que eu lhe entregue o mais belo pedaço de Lua que já vi em toda a minha vida”. E então ele sacou uma faca, cortou um grande maço de cabelo da deusa e entregou-lhe.

Rythila estava impressionada.

– O que a deusa fez?

– Bem, todos ficaram horrorizados com a cena, mas a deusa apenas perguntou: “meu nobre caçador, porque fizeste isso?” Ao que ele respondeu: “minha nobre senhora, pediste um pedaço da Lua. Nada mais justo que um maço de cabelo prateado da própria Lua prateada encarnada”.

– Ele sabia que ela era uma deusa?

– Sim.

– E o que ela fez? – estava cada vez mais interessada na história.

– Ela perguntou: “meu nobre caçador, como sabias que eu era uma deusa?” E o caçador respondeu: “Porque jamais vi tamanha beleza em uma mulher. Tal beleza só podia ser obra de uma deusa.” E a deusa retrucou: “se me achavas tão bela, porque não me galanteaste?” E o caçador respondeu: “por que sabia que não teria chances de ter o seu amor. Olhe, homens ricos e poderosos e cantores talentosos tentaram e não conseguiram. Porque eu, um humilde e solitário caçador, conseguiria?” E ela respondeu: “por que você teve a audácia de enxergar aquilo que os outros não enxergaram.” E deu-lhe um beijo.

– E então, ela casou com ele?

– Não, porque ela era uma deusa. Não poderia casar com um simples humano. Mas, como ela prometera, ela escolheu o caçador e ele, um simples caçador teve o amor de uma deusa por uma semana. E depois ela sumiu, voltou para o Reino dos Deuses.

– Só isso? – estava um tanto desapontada – E o caçador, fez o que?

– Ele voltou para sua vida de caçador solitário. Porém, nove meses depois, alguém deixou na porta de sua cabana um cesto com um bebê dentro dele.

Rythila entendeu logo:

– O filho dele com a deusa!

– Sim. Selynny engravidou e deu-lhe um filho de cabelos prateados e olhos azul-acinzentados. Ele tornou-se um bravo e belo caçador, assim como o pai. E tornou-se também o primeiro Patriarca do clã da Lua, em homenagem a sua mãe, a deusa-lua Selynny. Por isso seus descendentes são chamados de filhos da Lua.

Rythila estava maravilhada com a história. Vislumbrou novamente a grande Lua prateada no céu. Sou filha da Lua com um valente caçador. Imaginou a própria mãe sendo a deusa e o pai sendo o bravo caçador. Mas minha mãe tem cabelos loiros nos meus sonhos.

– Pai, minha mãe era muito bonita?

Sim, mas Alysane era mais bonita.

– Era a mulher mais bonita que já pisou nesta terra. – mas a imagem que vinha a sua mente não era a de Lysa.

– Ela tinha cabelos prateados como os meus?

– Não. Ela tinha cabelos loiros. Como os meus.

– E porque meus cabelos são prateados?

A verdade vislumbrou em sua mente, mas ele não a verbalizou.

– Porque você é tocada pela Lua. – foi o que disse.

Rythila gostou daquilo.

– Então, nem todos do clã da Lua possuem cabelos prateados como os meus?

– Não. A maioria dos descendentes desse clã possuem cabelos loiros-claros, como os meus. Apenas alguns poucos nascem com a sua tonalidade de cabelo. Já ouvi alguém dizer que apenas um em cada mil. Sua mãe costumava dizer que isso era uma dádiva dos deuses.

Ela gostou daquilo. Fazia dela uma pessoa especial, e todos nós gostamos de se sentir especial em algo.

– Sou filha da Lua – disse bocejando.

– Sim, mas esta filha da Lua precisa dormir agora.

E ela foi dormir. E sonhou que sua mãe era uma deusa e seu pai um caçador.

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3 comentários sobre “Capítulo II: A Deusa e o Caçador

  1. Pingback: Ficha de personagens: Lysa e Irvyni | As Crônicas de Erys

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