Capítulo III: O cavaleiro do cabelo de fogo

Como prometido, aqui vai o terceiro capítulo da história. Nele vemos a primeira manifestação de ny (a energia de transformação responsável pelas habilidades mágicas dos nyflyns). E também é mencionada pela primeira vez a lendária e quase mística Torre de Vigia de Aymon. A Irmandade da Luz também é citada neste capítulo. Espero que gostem, ajudem a divulgar e comentem.

Se preferir, pode acompanhar pelo Widbook.

Que a Luz ilumine vosso caminho.


CAPÍTULO III: O cavaleiro do cabelo de fogo

O grupo se reunia em volta da fogueira para espantar o frio da noite. Eram cinco no total. Todos eram do mesmo esquadrão. Tellys amolava pacientemente sua espada com uma pedra. É importante que uma espada sempre esteja com o fio certo.

– Então, o que faremos amanhã? – perguntou Merbyn – Continuaremos os saques aos peregrinos desavisados da estrada?

Estiveram atacando viajantes por seis dias. Os viajantes eram muitos, vindos de diversas partes do continente para o grande Festival da Colheita. Seu grupo em si não matou nenhum deles, apenas praticaram a o furto, a pilhagem, embora pelas notícias que receberam no começo da noite, o grupo de Miltry estava cometendo assassinatos. O Governo de Vyzar, como esperado, enviou guardas para tratarem do assunto. Nenhum deles retornou triunfante. Nenhum deles sequer retornou. Agora que eram o centro das atenções, estava na hora de reconsiderar o plano. Na verdade não. O plano original da Comandante sempre fora chamar a atenção e depois se retirar. Mas é claro, alguns queriam continuar assolando os viajantes. Merbyn era um deles.

– Acho que as ordens da Comandante Arisha foram claras – respondeu o Capitão Helttar. – Agora que ela entrou na cidade e chamamos a atenção para nós, devemos recuar. Nossa missão de reconhecimento acabou por aqui.

– Ah, que se fodam as ordens daquela vadia. – disse Merbyn – Quero continuar com os saques.

– ‘Aquela vadia’ é sua superior, caso tenha se esquecido – lembrou-lhe Helttar – Deveria mostrar mais respeito.

– Meu pau tem respeito pelo que ela tem entre as pernas. – caçou ele. Os outros riram. Helttar não achou a menor graça disso. Nem Tellys.

– A Comandante Arisha sabe o que está fazendo. – ponderou Tellys – Ela deve ter a situação sob controle agora. É uma excelente estrategista.

– Há, essa é boa. – cuspiu Merbyn – Ela não sabe nem mesmo escolher seus homens. Recentemente escolheu aquele idiota do Getther para integrar o seu esquadrão pessoal.

– Ele certamente mereceu isso – ponderou Tellys – Ela deve ter visto algum potencial nele.

– Só se for um potencial na cama – isso arrancou outra onda de gargalhadas dos outros. – Aquele idiota não merece isso. Eu sou melhor guerreiro que ele.

– Tem inveja então? – implicou Helttar.

– Não. É apenas uma questão de justiça. Aquele Getther só sabe contar vantagens. Outro dia ele estava se gabando de que havia esmagado a cabeça de um pobre coitado qualquer. Com as mãos nuas. Bha, besteira eu digo. Ele vive dizendo esse tipo de coisa para impressionar. Ele não passa de um fanfarrão covarde. Eu…

– Psiu! – interrompeu Heltter.

– O que foi? – perguntou Merbyn. O idiota estava tão concentrado em seu discurso que não ouviu a aproximação de alguém.

Não houve tempo para resposta. Um jovem guerreiro surgiu por detrás das árvores. Era realmente muito jovem, um adolescente ainda. Era ruivo e trazia uma espada presa a bainha.

– Alto lá! Quem é você, guerreiro? – inquiriu Helttar.

O jovem guerreiro parou. Observou o grupo atentamente por alguns instantes silenciosamente. Parecia estudá-los com seus olhos azuis. Sorriu levemente.

– Bem… meu nome não interessa. Vocês estarão todos mortos em alguns instantes mesmo… – falou com o sotaque do povo do Oeste.

– O quê!? Perdeu a noção do perigo? – Merbyn se sentiu particularmente ofendido com suas palavras. – Muito bem, garoto, vejamos quem é o bom aqui – desembainhou sua espada – Duelemos.

– Bem, se assim quer. Isso não mudará em nada o resultado final – desembainhou também sua espada, uma bela espada de uma mão.

Merbyn aproximou-se a passos rápidos e em um piscar de olhos estava fazendo chover aço sobre o rapaz que se defendia com alguma habilidade, embora estivesse claro que não fosse melhor espadachim que Merbyn. Este era mais velho e experiente.

– Rá. Vai ficar apenas fugindo, garoto? Lute de verdade. Ou esse é seu melhor? – provocava ele.

Então ele investiu novamente e o garoto habilidosamente defendeu o golpe com sua espada, mas outra investida fez ele perder sua arma. Agora estava desarmado, era seu fim. Brandiu novamente o aço contra o indefeso rapaz, mas no momento certo este segurou a lâmina com suas duas mãos. Um filete de sangue surgiu entre o aço e sua mão.

– O quê?

– Quer que eu lute sério? Muito bem, veja minha verdadeira habilidade.

Merbyn tentou puxar a espada de volta, mas o rapaz prendia a lâmina firmemente entre as palmas de suas mãos. Não soltava de maneira alguma, mesmo sabendo que estava se ferindo com esse ato. De repente, achou que o ar estava ficando mais quente. Na verdade, muito quente. Uma onda de calor insuportável tomou conta do frio da noite. O aço começou a emitir um brilho incandescente. No instante seguinte sentiu sua mão queimar, com o calor da espada. Largou a arma.

– O quê. O que é isso?

– Fogo – respondeu o jovem, que agarrou seu rosto com uma das mãos.

Merbyn tentou fugir, mas a força do rapaz era grande. Em poucos instantes estava gritando e esperneado e sua cabeça estava sendo queimada por um calor infernal. Seu couro cabeludo pegava fogo e sua pele derretia com a temperatura. Caiu sem vida. A mão do jovem estava envolta em chamas, mas não era consumida pelo fogo.

Tellys estava paralisado de medo. Ainda não digerira o que acontecera.

– Qu… Quem é você? – perguntou-se abobado.

– O seu pior pesadelo – sorriu da piada sem graça.

O que se seguiu foi um inferno horripilante, onde aquele rapaz era o demônio.

– Devemos chegar à cidade ao cair do crepúsculo, Rythy. Viajamos rápido. Partimos a apenas seis dias.

Rythila já estava ansiosa por isso. Ver a cidade grande era um de seus grandes sonhos. Sempre imaginara como seria. A casas acima de casas, os grandes mercados e palácios, a Grande Torre e os Jardins que o Ancião falara. Naquele momento estavam cruzando um campo aberto de vegetação rasteira. Estiveram viajando por uma estrada aberta ao longo da Grande Floresta por quase dois dias. Perto do crepúsculo no segundo dia a floresta fora ficando cada vez menos densa até ceder lugar à Grande Campina de vegetação rasteira. A estrada continuava ao longo dos campos, seguindo de perto o Rio Vyz. Já era manhã do sexto dia. Ao longe, à esquerda, vislumbrou um casebre abandonado. Cerca de uma hora depois passaram por uma aldeia. Não era muito grande, mas parecia ser bem servida. Rythy viu alguns jovens pastoreando algumas ovelhas ao longe. Também notou estábulos e grande quantidade de gado pastando ao longo do campo. Havia um moinho e um celeiro. Mais ao longe, viu plantações, dos mais variados tipos: batatas, cenouras, milho…

– Faremos uma pequena pausa aqui, Rythy. Poderemos descansar um pouco, após fazermos uma refeição decente. Depois, seguiremos viagem.

– Mas ainda chegaremos na cidade hoje?

– Certamente. Antes do cair da noite.

– Não seria melhor passarmos a noite aqui? Quero dizer, teremos onde ficar na cidade?

– Não se preocupe. Sempre há uma pensão onde podemos passar a noite. Além disso, é bom que cheguemos antes do cair da noite.

– Por que?

– Você verá o porquê quando chegarmos nos Jardins – disse com um sorriso sapeca.

Ela não entendeu o significado disso, mas deu de ombros. Certamente entenderia quando chegasse. E assim pararam na aldeia. O Ancião da aldeia recebe-os calorosamente. Era um velho conhecido do pai.

– Ah, então essa é a pequena Rythila? – disse ele com sua voz fraca e lenta, após o pai tê-la apresentado. – Aproxime-se, minha pequena, quero vê-la mais de perto. Estes meus velhos olhos não enxergam mais com o enxergavam na minha juventude há há!

Rythila se aproximou. O Ancião tocou-lhe o rosto e os cabelos com suas mãos trêmulas. Era muito velho, mais velho que o Ancião Slarty. Na verdade, perto dele o velho Slarty parecia estar no ápice de sua juventude. O velho Slarty era ágil para a idade, conseguia se locomover sem dificuldades e sem ajuda, enxergava bem e, se tinha a voz suave e lenta, era mais por questão de personalidade do que por motivo de velhice. Este outro Ancião da aldeia estava claramente perto de seus últimos dias. Ficava o tempo todo sentado, com uma agilidade morta e quase cego. Mesmo assim viu os belos cabelos prateados de Rythy.

– Ah, tocada pela Lua, há – disse, num misto de suspiro com tosse. – Não vejo uma legítima filha da Lua a muitos anos. Sua mãe era do clã da Lua, mas ela não era tocada pelo Lua, como você é.

– O senhor conheceu minha mãe?

– Ah, sim! Boa moça ela era. Uma pena que não tenha resistido a terrível febre. – tossiu longamente. Neste momento alguém adentrou no quarto e avisou que a refeição estava pronta. – Melhor ir comer, filha. Deve estar faminta da viagem. Aproveite, a refeição daqui é muito boa há há.

Rythila fez uma reverência cortês e beijou-lhe a mão esquerda. Saiu dos aposentos correndo seguindo a ama que viera busca-los. O pai permaneceu por alguns segundos, beijou a mão do Ancião, depois caminhou calmamente para fora. Quando já não era mais possível que Rythy ouvisse, este o chamou de volta:

– Filho. – disse com sua voz rouca e grave.

– Sim, Ancião? – perguntou ele, parando na porta.

– Senti algo adormecido dentro dela. – disse ele com um sorriso que indicava que Ian sabia o que era o algo – E você sabe disso, não é mesmo?

– Temia que minhas suspeitas fossem verdade.

– Então, ela é como a mãe… – Fez uma pausa – Foi por isso que a trouxe aqui? Para que eu a visse e confirmasse suas suspeitas?

– É como o senhor diz, Ancião – fez uma reverência e saiu.

Seguiram seu caminho depois de descansarem um pouco após a refeição. Já estavam na estrada há uma hora. Neste ponto os a vegetação começou progressivamente a ficar mais densa, até que tornou-se um pequeno bosque.

– Está ansiosa para ver a cidade, Rythy? – perguntou com um sorriso.

– Muito – respondeu ela, com um sorriso ainda maior. – Quero muito ver as casas acima de casas…

Um zumbido cortou o ar e uma flecha aninhou-se na madeira da carroça. Ian instintivamente levou a mão à bainha, mas não sacou o punhal. Olhou em volta, na direção de onde viera a flecha.

– Quem está aí? – gritou.

– Pai… – Rythila começou a falar, mas Ian empurrou-a para baixo.

– Fique abaixada – disse entre dentes.

Ouviram-se gargalhadas vindas do bosque. Então, dois homens surgiram por detrás das árvores e bloquearam o caminho. Um deles era alto e esguio, cabelos negros e barba rala e falhada. Vestia camisa e calça de couro fervido. Trazia à bainha dois punhais e uma grande bolsa de couro nas costas. O outro tinha estatura mediana, era moreno e quase calvo e com um pequeno cavanhaque. Também vestia roupas de couro fervido e trazia uma pequena espada de uma mão a tiracolo. Mas onde está o arqueiro? Ian procurou rapidamente com o olhar por entre as árvores, mas não encontrou.

– Mas veja isso, Mikys, um pai e uma filha viajando sozinhos sem proteção – falou o homem calvo para o outro. – O que acha que devemos fazer com eles?

– Acho que devemos matar o pai e estuprar a filha. – falou o outro, com um tom de voz que era impossível dizer se falava sério ou não.

– Não diga isso, meu velho amigo. A garota ainda é muito jovem e o pai pode ser útil – respondeu com um sorriso irônico.

– Útil seria qualquer ouro que este aí pode ter – respondeu Mikys – Tem algum ouro, forasteiro?

– Não tenho ouro e nem sou forasteiro – respondeu Ian, sem se deixar intimidar.

– Ah, não? Vem pela estrada, és um forasteiro – disse o homem calvo. – Além disso, esse seu sotaque desmente o que acabaste de falar.

– E se não tem ouro, então não tem serventia. A menos que tenha prata. Tem alguma prata, forasteiro? – perguntou novamente Mikys.

Ian olhou discretamente na direção de onde eles vieram. Onde está ele?

– Procurando pelo nosso arqueiro, forasteiro? – disse o homem calvo. – Bem, eu garanto que não vai encontra-lo. Mas sua flecha certamente encontrará o teu coração se fizeres alguma coisa estúpida.

Ian refletiu por um tempo suas palavras. Depois desconfiou da verdadeira situação. Não havia arqueiro. Ele poderia cuidar dos dois facilmente, mas não queria fazê-lo na frente de Rythila. Não tanto pela violência em si, mas por que isso traria perguntas as quais não estava disposto a responder. Era ainda muito cedo para falar de ny para ela.

– Devo admitir, essa é realmente uma boa estratégia – disse Ian – Afeta emocionalmente o oponente, impedindo-o de raciocinar corretamente.

O homem calvo pareceu um pouco confuso, mas Mikys pareceu compreender que Ian entendera a estratégia. Mas não se deixou impressionar com as palavras de Ian:

– Muito bem, forasteiro. Tu falas muito bem, mas tuas palavras bonitas não ter servirão de nada aqui. Vamos terminar logo isso, sem violência. Entregue-nos todos os teus pertences e todo ouro, prata ou bronze que tiveres. – Mikys parecia bem confiante no que dizia, tanto que dizia com os braços cruzados.

Ian ouviu um pequeno ruído vindo do bosque. Era muito silencioso, mas Ian era um caçador experiente e sabia quando algo estava se aproximando sorrateiramente. Sua resolução anterior pareceu vacilar, mas Mikys continuou falando:

– Como estamos de bom humor, deixaremos que fiques com tua carroça e teu cava…

Então, todo aconteceu muito rápido. Uma flecha voou de algum lugar incerto e cravou-se na goela do Mikys, que caiu de costas no chão.

– Rythy – gritou Ian – para o chão.

Rythila pulou rápida para fora da carroça e abaixou-se por detrás dela. Enquanto isso, Mikys agonizava no chão, engasgando-se com o próprio sangue.

– Maldito seja! – gritou o homem calvo. – Morrerá hoje mesmo, forasteiro. – E investiu contra Ian, brandindo sua espada, claramente não tinha entendido que a flecha não partira de Ian.

– Espere, não vê que não…

Nem precisou terminar de falar. Nesse instante, outra flecha cortou o ar e atingiu o estômago do alvo. O homem calvo caiu de joelhos no chão, grunhindo de dor. Ian permanecia parado no mesmo local. Parecia paralisado. Ainda não acreditava no que estava acontecendo. O que foi tudo aquilo?

– Quem é você?! – bravejava o homem calvo no meio de sua dor.

– Eu? Sou apenas aquele que vai levar sua cabeça ao Conselho da cidade.

Ian virou-se em direção à voz. Por detrás das árvores do bosque surgiu um jovem portando arco-e-flecha. Era muito jovem, não devia ter mais que uns quinze anos. Era alto, para a idade. Vestia roupas de couro fervido, mas era couro de alta qualidade, botas de cano longo e um manto vermelho que era prendido por um broche vermelho em forma de fênix. Trazia, além do arco e a alforja de flechas, uma espada presa à bainha. Tinha belos olhos azuis claros e curtos cabelos ruivos e uma fina barba loira-avermelhada. Na orelha esquerda usava um brinco com uma joia vermelha. Na direita, usava um brinco com um adorno de penas, duas penas vermelhas ligadas uma na outra.

– Oh – suspirou Rythila.

Nunca antes na vida vira alguém com cabelos vermelhos, embora não tenha vivido tanto assim. Sou tocada pela Lua pensou ela; mas ele é tocado pelo Sol. O rapaz misterioso olhou de relance para ela e sorriu amavelmente. O homem calvo ainda estava de joelhos, remoendo sua dor. O rapaz de aproximou dele, passando por Ian, e arrancou a flecha com um único puxão. O homem calvo gritou estridentemente de dor e caiu de costas no chão. O rapaz examinou o ferimento.

– Qual seu nome, fora-da-lei? – perguntou.

– Não sou um fora-da-lei – disse o homem calvo, sentido muita dor e sangrando muito.

– Não compartilho dessa opinião. – disse secamente. – Mesmo assim, ainda tem um nome.

– E o que importa? – disse orgulhosamente. – Estou morto mesmo.

– Isso é verdade. O ferimento é mortal. Morrerá em poucas horas.

– Então dê-me a misericórdia.

– Como desejar.

O rapaz levantou-se calmamente, pôs uma flecha no arco e disparou-a diretamente na garganta do homem calvo. Nesse meio tempo, Ian e Rythy apenas observaram a cena horrorizados.

– Você… você… – tentava dizer Ian, mas não articulava direito as palavras. Já vira a morte antes, mesmo assim nunca é fácil ver a vida de um ser humano se desvanecer. Nem queria imaginar o que Rythy sentia – Você matou-os?

– É o que parece – respondeu vagamente. – Eles eram fora-da-lei. Bandidos que vinham atormentando os viajantes que cruzavam este bosque há alguns dias. Eles mesmo já mataram meia dúzia de forasteiros desavisados, assim como vocês, à pelo menos uns oito dias. Toda a cidade estava preocupada com esta situação. Há dois dias enviaram um grupo de vinte soldados para caçarem esses bandidos e trazerem suas cabeças. O próprio Capitão da Guarda comandava-os. Bem… ontem chegou uma cabeça aos portões da cidade, mas não era a cabeça de algum deles, é claro. Era a cabeça do Capitão da Guarda, carregada no seu próprio cavalo.

Rythy ficava cada vez mais horrorizada com a história.

– Você está dizendo que esses dois homens conseguiram matar vinte soldados da Guarda da Cidade, incluindo o próprio Capitão? – inqueriu Ian.

– Bem, na verdade, não eram apenas esses dois. Havia pelo menos uma dúzia deles, e não sei se ainda há mais escondidos no bosque.

– Uma dúzia?

– Sim. Contando com esses dois. Mas eu cuidei todos eles – e esboçou um sorriso de orgulho. – E como prêmio ainda ganhei esse arco que eles jogaram ali. – suspirou – Idiotas.

– Você matou doze bandidos como esses, sozinho? – perguntou Rythy espantada.

Só então Ian percebeu o que estava acontecendo. Compreendera tudo. Não precisava perguntar mais nada. Adiantou-se antes que ele pudesse responder.

– Bem, foi algo um tanto chocante, mas acho que eu e minha filha te devemos nossas vidas, cavaleiro. – e fez uma reverência.

Rythila pareceu um tanto perdida, e ainda muito assustada, mas também se aproximou e fez uma reverência:

– Obrigada, rapaz do cabelo de fogo.

Aquilo fez o jovem sorrir:

– Fiz apenas meu dever, garota do cabelo de lua – disse ele retribuindo a brincadeira.

– Acho que não fomos devidamente apresentados. Meu nome é Ian Flynn, sou o Mestre Caçador de uma das vilas da Floresta Vyz. Essa aqui é minha filha Rythila.

– Futura caçadora de uma das vilas da Floresta Vyz. – completou Rythy.

O jovem sorriu com sua resposta.

– Certamente que sim – disse ele.

Então fez uma revência: posicionou o arco e a espada a sua frente, no chão, ajoelhou-se sobre o joelho direito e o punho esquerdo apoiado no chão. Essa era a reverência padrão da Irmandade. Isso só fez as suspeitas de Ian se confirmarem.

– Meu nome é Edrik Maulik, do Clã da Fênix, cavaleiro andante, a serviço do Conselho da Cidade de Vyzar.

Clã da Fênix, pensou Rythy. O que é uma fênix?

Outras questões, porém, preocupavam Ian. Nenhum cavaleiro comum conseguiria lidar com uma dúzia de homens armados sozinho tão facilmente assim. Ainda mais um tão jovem como este. Só havia uma explicação possível: um manipulador de ny. Cavaleiro andante? Certamente não. Era um guardião da Irmandade. Mas o que estaria fazendo deste lado do continente? E onde estaria seu parceiro? Ou, mais provavelmente, seu mestre. Guardiões sempre andam em dupla nas missões. Mas é claro, não verbalizou nenhum desses pensamentos.

– Pois bem, kir Edrik, cavaleiro andante. Devemos nossas vidas à você.

– Já disse, era o meu dever – respondeu levantando-se. E completou – Permitam-me que acompanhe vocês em segurança até os portões da cidade.

– Ah, acho que não será necessário. Já fez muito por nós hoje – disse Ian, olhando de relance para o cadáver do homem calvo.

– Eu insisto, senhor caçador. Como eu disse, não sei se ainda há mais desses fora-da-lei escondidos pela floresta ou quantos são…

– Se ainda há algum, deve estar assustando agora, porque provavelmente sua fama já se espalhou.

– Mesmo assim, eu insisto. Ademais, preciso voltar para a cidade, sabe. Descansar um pouco, comer uma boa comida e relatar meu depoimento ao Conselho. Eles devem enviar uma equipe para coletar todos os cadáveres desses bandidos e dar-lhes um fim digno, eu suponho.

– Bem – disse Ian – seja como você diz.

O cavaleiro assentiu. Antes de continuarem viagem, Edrik e Ian retiraram os cadáveres do meio da estrada. Depois Edrik voltou para a floresta e retornou minutos depois com seu cavalo, que deixara amarrado pastando em local seguro. Só então prosseguiram viagem.

O resto do caminho até os portões da cidade foi tranquilo. Nenhum fora-da-lei apareceu e, se aparecesse, Rythy tinha certeza que o cavaleiro do cabelo de fogo cuidaria deles. Ela estava ainda uma tanto receosa quanto a ele, por causa do ocorrido, mas também não poderia negar que estava vislumbrada com Edrik. Nunca vira jovem tão bonito na sua vida. E tão gentil. Ele até permitiu que ela compartilhasse a montaria com ele. Seu pai fez cara de quem não gostou da ideia, mas não fez nada para impedir.

Durante a cavalgada, Edrik saciou sua curiosidade e respondeu à chuva de perguntas de Rythila. Assim ela soube que fênix era uma ave lendária que nascia do fogo ou qualquer coisa desse tipo. O clã da Fênix era um dos mais antigos que existiam e seus primeiros patriarcas viveram na Era dos Heróis e segundo a lenda a primeira Matriarca era uma linda princesa guerreira chamada Murikay que era filha do Deus do Fogo e de uma Rainha Ninfa e montava uma enorme fênix para voar pelos céus de Erys. Por isso os descendentes da Fênix são os ruivos (pois são filhos do Deus do Fogo) e têm olhos azuis (pois são filhos de uma ninfa). Rythila, é claro, adorou a história e, em retribuição, contou a Edrik a história do próprio clã, como o pai contara anteriormente. Edrik ouviu atentamente e no final disse que as histórias tinham suas similaridades.

– Sim – concordou Ian – É sempre a mesma velha história – disse enigmaticamente.

Ele pareceu não entender, mas também pareceu não se importar com isso. Rythila estava simplesmente deslumbrada com ele, talvez por ele ter salvo sua vida e de seu pai. Queria saber mais sobre sua vida.

– Como se tornou cavaleiro, Edrik? – perguntou curiosa. – Você é tão jovem…

Ele pareceu refletir um instante, pensando – ou escolhendo? – as palavras corretas.

– Bem – contou ele – Eu sempre quis ser um cavaleiro. Desde criança. Então um dia, quando eu tinha apenas sete anos, dois cavaleiros da Ordem da Luz vieram até a corte do rei Hellys. Não lembro bem o que eles queriam, mas o fato é que assim que soube que eram cavaleiros ungidos eu insisti para eles que queria ser um cavaleiro também. O cavaleiro riu da ideia, o que me deixou um tanto chateado. A cavaleira foi mais gentil, embora ela também dito que ser cavaleiro não era uma vida fácil. Passei o resto de sua estadia implorando para que ela me levasse e me treinasse. No começo ela não gostou da ideia, mas por fim resolveu me aceitar como pupilo. Ela me treinou e hoje estou aqui.

Rythila cada vez mais gostava da história. Uma cavaleira? Imaginou-se sendo uma cavaleira também, corajosa e justiceira.

– Será que eu posso ser uma cavaleira também? – perguntou de sobressalto.

– Er, bem… Acho que sim. Mas teria que ter permissão do seu pai…

Ian estava com cara de quem não gostava nem um pouco da história.

– Um dia, quem sabe – respondeu ele meio evasivo – Ainda é muito jovem para isso.

Aquele era o tipo de resposta clássica de seu pai: simples e que não responde nada de fato. E ele imediatamente mudou de assunto, mas esse também lhe interessou.

– Edrik, você disse que conheceu sua mestra na corte do Rei Hellys das Terras do Fogo? Você vivia na corte?

– Sim. Na verdade eu pertenço ao ramo real do clã da Fênix – respondeu sem esconder seu orgulho.

– Da família real? Então você é tipo um príncipe? – Rythy ficava cada vez mais admirada com o cavaleiro.

– Bem, na verdade não um príncipe. Estou muito longe na linha de sucessão. Minha mãe é prima distante da Rainha Jaennys. Eu apenas cresci na corte.

– Mesmo assim – disse Rythy, como um consolo – Deve ser muito legal viver numa corte. Eu queria ser uma princesa.

– Bem – respondeu ele – Você é mais bonita do que todas as garotas da corte que eu conheci. Nenhuma delas tinha cabelos cor de prata como os seus. Bem, dizem que as mais belas são sempre as mulheres mais simples. Não concorda, Ian?

Rythy corou com o elogio. Ian apenas respondeu vagamente:

– A mais bela é aquela que seu coração escolhe sinceramente, seja ela uma princesa ou uma camponesa.

– Sábias palavras.

– Bem, você também é muito bonito. – disse Rythy retribuindo o elogio – Nunca vi alguém com cabelos de fogo.

Ele sorriu de volta. Retirou uma das penas de seu brinco e colocou em seus cabelos.

– Um presente meu para você.

– É linda essa pena. Nunca vi um pássaro de penas vermelhas.

– É uma pena de fênix-da-floresta.

– Uma fênix? Como na lenda que você contou?

– Não. Essas da lenda são fênix de fogo. Suas penas são feitas de chamas. Essa é de fênix-da-floresta. É um pequeno pássaro comum nas florestas próximas as Terras do Fogo. Têm esse nome por causa de sua plumagem avermelhada. São aves bastante inteligentes e, embora não sejam imortais como a ave lendária, vivem mais de oitenta anos.

– Oooh. – Rythila se impressionou com isso. A ave vivia mais tempo que os homens, que vivem em média sessenta anos.

Seguiram por mais algumas horas.

Já a alguns quilômetros de distância, podia-se ver as altas e negras muralhas de cercavam o perímetro da cidade. E mesmo de longe podia-se ver a abobada da Grande Torre, sede do poder de Vyzar.

– Parece tão alta… – disse Rythy admirada.

Edrik sorriu da admiração dela e disse, como que tentando demonstrar sabedoria:

– Sim, mas não tão alta quanto a Torre de Vigia de Aymon.

Rythy nunca ouviu falar deste lugar, mas não estava surpresa. Sabia que o Erys era gigantesca e havia muita coisa que não conhecia. Limitou-se a dizer:

– Ela é mais alta que esta torre?

– Muito mais alta. Tão alta que pode tocar o céu.

Ian parecia não se divertir com toda aquela amizade da filha com o estranho cavaleiro.

– Não diga bobagens. Nada é tão alto a ponto de tocar o céu.

– A Torre de Aymon toca, eu garanto. Vi com meus próprios olhos – retrucou num tom meio desdenhoso que Rythy não notou, mas não passou despercebido a Ian.

– Decidirei se toca ou não quando eu a vir com meus próprios olhos. – disse Rythy, quebrando o silêncio.

Aquilo arrancou um esboço tímido de sorriso dos lábios de Ian e uma gargalhada vívida de Edrik.

– Essa tem personalidade – disse – Bem, quem sabe, um dia posso te levar para conhecer a Torre de Aymon. Que me diz, Ian? Tenho permissão para raptar sua filha? – disse em tom jocoso.

– Só quando a Torre de Vigia cair – disse sobriamente com um sorriso enigmático nos lábios e um olhar questionador nos olhos. Edrik pareceu entender a mensagem e apenas acenou com a cabeça.

Rythila, é claro, não entendeu as palavras do pai e perguntou confusa:

– A Torre vai cair?

– Um dia, talvez. – respondeu secamente Ian. Acelerou o trote – Vamos, a cidade nos espera.

E passou a frente com sua carroça. Edrik apenas seguiu seu passo sem dizer mais nenhuma palavra. Rythila percebeu que aquela era toda a resposta que obteria. Já estava acostumada com as respostas vagas de seu pai que de fato não respondem nada. Edrik acelerou o trote também, acompanhando Ian. Rythila limitou-se a sonhar acordada, imaginando-se sendo uma princesa morando em uma torre tão alta que tocava o céu.

Encontrei essa arte no Tumblr. Achei massa, embora o garoto seja ruivo. Mas admita: pirocinese é muito foda, né? (Cuidado: brincar com fogo pode ser perigoso)

Encontrei essa arte no Tumblr. Achei massa, embora o garoto não seja ruivo. Mas admita: pirocinese é muito foda, né? (Cuidado: brincar com fogo pode ser perigoso)

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3 comentários sobre “Capítulo III: O cavaleiro do cabelo de fogo

  1. Pingback: Ficha de personagens: Edrik e Desmynd | As Crônicas de Erys

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