A Ilha dos sentimentos suprimidos

Mais outro conto de minha autoria. Espero que gostem.


A Ilha dos sentimentos suprimidos

Perdida no meio de um grande oceano azul e cristalino havia uma ilha. Era uma ilha solitária, monótona e sem graça, embora estivesse cercada de beleza. Era a maior ilha de um pequeno arquipélago de cinco ilhas. Todas as outras ilhas que a cercavam eram belas, exuberantes, cheias de vida, de cor, de sinfonia. Eram ilhas paradisíacas, exóticas, o lugar perfeito para as férias mais perfeitas. Mas a grande ilha no centro do arquipélago era diferente. Tinha vida, mas era morta. Tinha beleza, embora não fosse vista – ou não quisesse ser vista. Era uma ilha estranha, habitada por pessoas estranhas, indiferentes, insensíveis.

Era uma ilha habitada por pessoas que haviam esquecido há muito tempo como era sentir.

Era uma ilha onde as cores tinham um tom mais acinzentado.

Era uma ilha onde a beleza não era apreciada.

Era uma ilha onde a verdade não era contemplada.

Era um ponto singular no grande oceano de cor e calor.

Era a Ilha dos sentimentos suprimidos.

As pessoas que habitavam essa ilha eram frias como o inverno mais triste. Não havia um traço de calor em suas vozes. Não havia nenhuma cor em seus olhares distantes e indiferentes. Não havia nenhuma vibração positiva em seus movimentos corporais. Nem negativa, deve-se dizer. Não havia emoção nenhuma nelas. Não havia curiosidade em seus âmagos. Não havia amor ou ódio em seus corações. Em suma, essas pessoas não viviam.

Apenas sobreviviam.

Eram pessoas simples, e isso era um ponto positivo. Ou talvez pudesse ser um ponto positivo. Ninguém sabia ao certo. Ninguém refletia sobre isso. Ninguém ousava pensar, raciocinar, questionar, filosofar sobre a vida. Não sentiam a necessidade disso. Por que se preocupar com o amanhã? O importante era viver – não, sobreviver – o aqui e agora. Por que se preocupar com a causa ou efeito das coisas? O importante era que as coisas funcionavam e que a natureza seguia seu curso. Por jamais refletirem sobre sua situação, jamais perceberam que eles de fato não estavam vivendo. Não realmente. E assim a rotina continuava, sem preocupações.

Na verdade, houve um momento – apenas um – em que alguém ousou pensar além das coisas imediatas. Em que alguém ousou raciocinar, questionar, filosofar. Foi o momento em que alguém despertou sua curiosidade. Foi o dia em que um homem ousou perguntar-se o que havia além do Grande Mar Azul. Não somente isso, ele imaginou o que poderia haver além daquelas águas azuis e cristalinas. Nunca antes – até onde se sabe – alguém sequer sabia que era possível imaginar algo, questionar-se sobre alguma coisa que está além de sua experiência. Mas esse homem imaginou. Será que haveriam outras ilhas? Outras pessoas? Outras espécies de animais, plantas, pássaros? Outras… formas de pensamento? Será que essas outras pessoas também se faziam os mesmos questionamentos?

Mas este homem ousou mais. Ele não apenas se questionou, mas dividiu suas dúvidas com os outros habitantes. Mas os outros habitantes não estavam preparados para esse tipo de pergunta. Era uma mudança muito brusca na maneira de interpretar o mundo. Aquele homem falava de coisas desconhecidas, estranha a elas. Tinham medo do desconhecido. Os outros habitantes não quiseram sair de sua zona de conforto e julgaram aquele pobre homem louco. E o expulsaram da Ilha.

O homem construiu um pequeno barco e jogou-se no Grande Oceano Azul. Partiu em buscas de respostas para os seus questionamentos. Talvez tivesse morrido. Talvez tivesse encontrado outra ilha, na qual passou a viver. Ninguém se importava. Ninguém questionava. Ninguém jamais ouviu falar dele depois disso. Gerações se passaram e aquela história já não mais era lembrada. Afinal, qual o propósito de lembra-la? Nenhum, certamente. Suas vidas continuariam com ou sem aquele homem que um dia ousou questionar, aquele homem que um dia ousara sonhar.

Aquele foi o único caso que abalou o cotidiano monótono daquela ilha, em muitos anos. Até que um dia, o impensável aconteceu. Impensável não porque era algo impossível de ser previsto. Na verdade era algo simples, razoavelmente imaginável. O problema é que ninguém jamais ousara imaginar que um dia aquilo poderia acontecer, por que ninguém jamais ousara imaginar qualquer coisa.

Naquela tarde ensolarada, porém sem brilho, uma embarcação surgiu no longínquo horizonte, vinda do Desconhecido infinito.

por Renan Santos

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4 comentários sobre “A Ilha dos sentimentos suprimidos

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