A Ilha da Perdição (parte 5)

Essa é a penúltima parte do conto “A Ilha da Perdição” e o clímax da história, por assim dizer. Espero que gostem. Que a Luz esteja conosco.


Parte 5: A Relíquia

Enterraram-no debaixo da grande árvore e prestaram as últimas reverências.

– Nenhum tesouro vale isso, capitão – falou Luthiel.

– Não. Não vale. Mas o que procuramos é mais que um tesouro. – respondeu enigmaticamente. – Vamos, estamos próximos agora.

Entraram na caverna que dá acesso à montanha. Prepararam alguns archotes e ascenderam, pois, como imaginavam, era muito escuro lá dentro. Desceram pela caverna muito profundamente, até chegarem na entrada do labirinto. Seria um grande desafio atravessá-lo, mas eles tinham um mapa. Jamais teria sequer iniciado essa jornada sem aquele mapa. Não tardaram a atravessar completamente. Na saída do labirinto, uma grande porta. Nela haviam várias inscrições em um idioma há muito tempo morto, ininteligível para Ayjin.

– Alto Ysdiniano – o capitão falou solenemente. – O idioma falado pelo antigo povo Ysdin que habitou Erys antes mesmo de os homens aparecerem…

– Até que a Expurgação recaiu sobre eles – completou Luthiel – Já contou essa história milhares de vezes, capitão.

– Sim, parece que sim.

– Consegue ler o que está escrito? – perguntou Ayjin, mas esperava que ele não soubesse.

– Sim. Aparentemente essas inscrições contam a história da Expurgação. Mas acho que já estão cansados de ouvir essa história – sorriu com o canto dos lábios.

Ayjin conhecia o capitão suficientemente para saber que ele estava escondendo alguma coisa, mas não disse nada a respeito.

– Sempre me surpreendendo, capitão – foi o que disse.

– É o que todos dizem.

– Como vamos entrar? – inqueriu Luthiel.

Jhunk empurrou a grande porta de madeira e ela rangeu. Empurrou mais até que a porta ficou entreaberta. O capitão sorriu para Luthiel.

– Abrindo a porta – respondeu.

Adentraram ao recinto. Era um salão circular, de uns doze metros de raio. Havia vários archotes apagados ao longo da parede. Ayjin ascendeu os mais próximos com as chamas do seu próprio archote. O salão não era totalmente plano. Era constituído de dois níveis. Eles se encontravam no mais alto. Dois metros adiante, havia um declive e um pequeno lance de degraus, conduzindo ao círculo mais interno. No chão deste estava pintado uma estrela de sete pontas. Em cada uma das pontas havia um cristal encravado no piso. No centro da estrela, havia um altar, onde se encontrava a relíquia. Era um cetro todo trabalhado em metal negro e cravejado de cristais. Na sua ponta, estava esculpido uma caveira, trabalhada em cristal negro.

– Pelos demônios, o que é isso? – disse Luthiel – Olhe só para essa coisa. E o que é essa estrela de sete pontas no chão? Que eu sabia este é o símbolo da Irmandade da Luz.

– A Irmandade da Luz é mais coberta de trevas do que de luz. – disse o capitão.

Luthiel franziu o cenho.

– Está insinuando alguma coisa com isso?

– Esqueça o que eu disse. São apenas palavras de um velho louco.

Luthiel deu de ombros.

– Foi por causa daquilo que nos arriscamos tanto? – ele apontou para o cetro.

Jhunk iniciou uma rápida explanação.

– Este é o Cetro da Perdição. Uma das relíquias mágicas mais poderosas e perigosas que já existiram. Foi usado na guerra da Expurgação.

– Às vezes você parece muito obcecado nessa tal de Expurgação, capitão.

– Gosto de história antiga. – deu de ombros. – Especialmente do povo Ysdin.

– Tudo bem. E o que vamos fazer com isso? Dá para conseguir um bom ouro vendendo-o?

– Você tem um pensamento muito mundano, Luthiel.

– Eu sou um pirata, esqueceu?

– Sim, claro… Mas não viemos aqui para pegar essa coisa para nós. Viemos aqui para destruí-la.

– O que?!

Neste momento Ayjin, que estava ocupada ascendendo todos os archotes, interveio.

– Está falando sério, capitão?

– Jamais falei tão sério.

– Isso é uma loucura! – disse Luthiel. – Não arrisquei minha vida para simplesmente destruir um cetro velho. Se não o quer, eu fico com ele – e encaminhou-se a passos largos em direção ao círculo interno, onde estava o altar.

O capitão interveio.

– Luthiel, não faça isso. Pare!

– Não tente me impedir, capitão! – e acelerou o passo.

Jhunk fez menção de segui-lo mas parou quando viu que Luthiel pisara dentro da estrela de sete pontas.

– Luthiel, saia já daí! – gritou – Isso é uma armadilha de ny. – mas já era tarde demais.

Os sete cristais nas pontas da estrela começaram a brilhar. Todos sentiram uma enorme e brusca flutuação de ny. Uma força mística atacou Luthiel, que soltou um urro de dor.

– Arrr! O que é isso?

– Saia daí! – gritou o capitão.

Luthiel tentou mover-se, mas caiu no chão, levando as mãos à cabeça.

– Minha cabeça… Que zumbido é esse…

E começou a se contorcer loucamente no chão.

– Temos que ajuda-lo! – falou Ayjin, que já corria em sua direção.

Jhunk segurou seu braço.

– Vai morrer se entrar lá.

– Precisamos fazer alguma coisa, ele vai morrer!

E neste momento Ayjin começou a ouvir um estranho zumbido, insistente. Parecia que não vinham de nenhum lugar específico, mas sim de dentro de sua mente. Jhunk também o ouviu.

– Jorff! – ele praguejou – Está atravessando os limites da armadilha.

Luthiel estava totalmente alheio ao que estava acontecendo. A única coisa que sentia era morte eminente. Sua mente era turbilhão de pensamentos e sensações desconexas. Já estava sangrando por todos os orifícios possível de seu corpo, enquanto de debatia debilmente no chão.

– Capitão! – Ayjin gritou, levando as mãos aos ouvidos. Sua vista estava embaçando.

Só havia uma coisa que se podia fazer. Jhunk invocou novamente sua skiv:

– Cartas dos 108 Destinos.

E as 108 cartas de yvck se materializaram ao seu redor, como estrelas cintilantes. O zumbido só aumentava em sua mente. Escolheu a que desejava: era um homem maltrapilho e aparentemente doente, envolto em correntes. Seus olhos estavam vendados com uma venda negra. Ao fundo, uma parede manchada de sangue.

– Prisioneiro da Masmorra Sombria: Prisão Espiritual.

A carta transformou-se em luz e voou direto para o Cetro da Perdição, que Jhunk sabia ser a fonte do ny responsável por aquilo.

Nesse meio tempo, Luthiel morreu, banhado em sague que escorria por seus olhos, boca e ouvidos. Jhunk era um nyflyn poderoso e estava aguentando bem até o momento. Provavelmente nem morreria por causa deste ataque. Mas o mesmo não se podia dizer deAyjin, que já caíra de joelhos no chão, levando suas mãos aos olhos, os quais estavam sangrando.

– Meus olhos! Capitão, faça alguma coisa.

Ele já fizera o que podia. Sua habilidade ‘Prisão Espiritual’ funciona selando o ny do oponente, impedindo de utilizar suas habilidades. Mesmo que esse oponente seja um cetro encanando com ny amaldiçoado. Mas era um ny bastante poderoso, e Jhunk teve dificuldades para sela-lo. E essa demora foi fatal. Ayjin caiu, se contorcendo no chão, por causa do terrível dano mental que estava sofrendo.

Quando finalmente conseguiu selar o ny definitivamente, Jhunk caiu de joelhos, cansado que estava. Aquela habilidade consome muito da aura. Suspirou profundamente e foi até Ayjin. Tomou-a em seus braços. Já não havia mais volta. Estava ferida além de suas capacidades de cura. Seus olhos estavam banhados em sague.

– Capitão… Estou cega.

– Psiu, não fale. – pôs dois dedos em seus lábios. Ela segurou sua mão.

– Eu sempre pensei que viveria mais que você – tossiu sangue – Mas parece que estava enganada.

Uma lágrima surgiu nos olhos de Jhunk.

– Quem diria que eu viveria mais que uma elfa – ele falou, com voz chorosa.

Ayjin sorriu. Ela agarrou seu pescoço e se esforçou ao máximo para inclinar a cabeça. Seus lábios tocaram os deles.

– Eu te amo, capitão. – sua voz estava morrendo.

– Eu sei. Eu sempre soube. – não pode mais segurar a lágrima.

– Agora eu posso ir em paz – sua voz não era mais que um leve sussurro.

E de repente, tudo escureceu e silenciou.

Pela primeira vez em centenas de anos, NaavyYjshen derramou uma lágrima.

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Crédito da imagem: Skull and Roses 2 by RodgerPister (Deviantart)

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